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domingo, 20 de abril de 2014

Corpos ardentes (1981)



O cinema já havia passado por sua revolução francesa nos anos 70 quando Corpos Ardentes (Body Heat) chegou para colocar um pouco de lenha nessa fogueira, que já parecia estar se apagando no começo dos anos 80. Cabeças já haviam rolado, os cineastas já haviam colocado a língua para fora e dito “não queremos mais essa artificialidade de vocês, nós vamos reinventar essa coisa chamada cinema”. Assim, as comédias românticas foram remodeladas, como a Camila ressaltou em seu maravilhoso post sobre Annie Hall, o thriller e o terror…  E muitos muitos outros gêneros também. Só faltava a releitura moderna do gênero noir, famoso nos anos 40 e 50. Corpos Ardentes veio para cobrir essa lacuna.

O filme marcou a estréia de Lawrence Kasdan, que já roteirizara Caçadores da arca perdida e O império contra-ataca, como diretor. Na época lançou controversas. Alguns críticos o saudavam enquanto outros despedaçavam seu filme pela pretensão de ser um neo-noir. Eu, mais aspirante a neo-Hedda Hopper do que crítica de cinema, estou no time dos que louvam Body Heat. Sim, é um neo-noir, pretencioso, por vezes tedioso, mas não podemos negar sua genialidade, que reside no fato de transpor elementos clássicos dos filmes noir para a realidade moderna dos anos 80.

Nossa história começa no quarto de Ned Racine (William Hurt), em Miranda Beach, na Flórida. Está um calor de matar (vai ser na praia da Barra que uma moda eu vou lançar)e o personagem está comtemplando a noite. Uma mulher sai do banho, provavelmente um caso de one night stand, e comenta sobre o calor infernal que assola a Flórida. Ned não liga. Aliás, Ned, como todos os personagens arquétipos de filme noir, parece não ligar para nada. Sua vida como advogado é medíocre, nem com os amigos parece se divertir muito. Ele é um advogado que vive dos trambiques e essa é a maior emoção de sua vida. Até conhecer Matty Walker.
Matty Walker (Kathleen Turner)
Matty é a típica femme fatale dos filmes noir, aquela mulher sedutora em quem não se pode confiar. Mas que tem um poder indescritível de arrastar o nosso protagonista fracassado para o abismo. E é o que Matty fará. Na primeira cena entre esses dois, já sabemos que uma química gigantesca está para explodir entre eles. Matty, para mim, lembra muito outra personagem de filme noir bastante famosa, Phyllis Dietrichson, interpretada magistralmente por Barbara Stanwyck em Pacto de Sangue. Isso porque, assim como Phyllis, não sabemos absolutamente nada sobre Matty, a não que ela é casada e parece ter uma vida tediosa. A atração por Ned é imediata, assim como foi com Walter Neff em Pacto. Mas se a superfície dessas duas tramas são iguais, o recheio é bastante diferente. Como assim? O recheio de que falo são os subentendidos, que se tornam explícitos em Body Heat.

Uma das qualidades mais louváveis de um filme noir é a maneira como as coisas não são ditas e ditas ao mesmo tempo. O escritório de censura em Hollywood, nos anos 40 e 50, regulava o que poderia ou não aparecer nos filmes. Sexo? Nem pensar. Por isso, os roteiristas e diretores tinham de ter muita criatividade para driblar a censura e fazer com que as pessoas entendessem o que aconteceria no final de uma cena X, por exemplo. Assim, em Pacto de Sangue, a atração sexual fica subentendida em diálogos entre Phyllis e Neff, como o que eles usam a metáfora da velocidade para falar sobre velocidade no flerte. Em Body Heat, não existe nada disso. Depois desse encontro casual no bar, Ned e Matty vão para a mansão dela consumar todo esse fogo e música, como dizia Margo Channing. As cenas de sexo entre eles são bastante explícitas, talvez chocantes até para os dias de hoje. Elas são muito bem executadas a medida que conseguem expressar melhor a situação do que os diálogos que sugeriam sexo nos noir dos anos 40 e 50. Digo, você consegue ver todo aquele desejo literalmente transpirar pelos poros dos personagens. Esse foi um dos motivos pelos quais Body Heat fora massacrado. As pessoas reclamavam que era muito melhor imaginar do que ver. Talvez os seios de Kathleen Turner ofendessem os mais conservadores, vai saber. Esse pequeno deslize faz do filme um neo-noir, uma vez que a superfície é a mesma, embora o recheio seja diferente.

Depois desta noite, os personagens começam a viver uma paixão intensa. Encontram-se quase todos os dias, quando o marido de Matty está viajando. Só que essa felicidade toda tem um empecilho, é claro: o marido de Matty. Para ficarem juntos era preciso que esse homem desaparecesse. Assim, eles – ou melhor, Matty – decidem que vão assassinar o marido dela. Como em todo noir que se preze, Ned é levado a cometer esse crime, sem se importar muito com as consequências. A paixão por Matty o cega. Sua vida só tem algum valor no momento em que ele pode vê-la ou tocá-la. Por isso, o crime é justificável para ele.


O casal arma todo um esquema e consegue matar o marido de Matty. No entanto, as coisas começam a degringolar, algo bastante comum no gênero noir e que dá mais ansiedade à trama. Essa ansiedade é gerada pela investigação do assassinato que começa, liderada pelos dois melhores amigos de Racine. A cena em que todos estão reunidos (investigadores, Matty, advogados, Racine…) para abrir o testamento é sensacional. A tensão começa a crescer até culminar no momento em que Ned fica sabendo que Matty contrariou suas ordens. Ela roubou o testamento do marido e o alterou para ser a única herdeira do espólio. Os advogados estranham. O caráter da personagem é posto à prova. Será que Matty é tão apaixonada assim por Racine? O que ela pretende afinal? Apesar de ser uma homenagem ao noir, o filme não se prende aos arquétipos, pois o final é um pouco diferente daquilo que se espera de um noir. Não pretendo contá-lo aqui, não quero estragar a graça do filme.

Body Heat também apresenta, em algumas cenas, diálogos hard-boiled. Esses diálogos ácidos e por vezes trágicos são uma marca desse gênero. Foram utilizados por autores de romance policial bastante célebres, como Raymond Chandler e Dashiel Hammett. Abaixo copiei um trecho do roteiro em que os personagens tem um diálogo hard-boiled:
hard
A onda de calor que assola a Flórida também é um personagem. Parece que ela deixa as pessoas fora de si, vide atitudes de Ned e a paixão fogo e música entre ele e Matty. Quando a onda de calor cessa, Ned cai na real. E isso não é nada bom.

Em sua autobiografia, Kathleen Turner relembra que William Hurt parecia não querer sair do personagem. Assim como Racine, Hurt bebia muito e gastava seu tempo com inúmeras mulheres. Já Turner diz que não estava levando sua atuação muito a sério. O fato é que levando ou não a sério, a química entre eles é inegável. Hurt e Turner trazem todo o fogo e música que até o momento só havia ficado na imaginação dos amantes de filme noir. Eles são Phyllis Dietrichson e Walter Neff modernos.

Apesar de demorar para engrenar, Body Heat merece ser visto e revisto por todos os amantes de filme noir e por aqueles que querem conhecer as marcas principais desse gênero cinematográfico. E, claro, porque o casal principal é tão lindo e sensual que nos causa frisson do começo ao fim.

Publicado por Jessica Bandeira.

Um comentário:

  1. Bom dia! Por favor há tempos tento saber exatamente com fica a Kathleen Turner (sua personagem) no final do filme pois ela está na raia e está e fala com alguém que não aprece na tela

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