O período clássico do cinema hollywoodiano guarda muitas pérolas hoje pouco conhecidas, sobretudo no gênero comédia romântica. Em conversas e vasculhando o Filmow muitas vezes descubro essas preciosidades, e invariavelmente escapa a seguinte exclamação: "NÃO ACREDITO QUE ESSES DOIS FIZERAM UM FILME JUNTOS!!!". Esse foi o caso de Vivacious lady (Que papai não saiba), que traz dois dos mais amados ídolos da época juntos: Ginger Rogers - muito mais do que só a parceira de Fred Astaire, como é lembrada hoje - e James Stewart - o eterno cara legal, com seus olhos de cachorrinho que caiu da mudança. Lançado na época em que o Código Hays proibia praticamente de tudo nas telas do cinema, esse filme traz como um de seus temas o ardor de um jovem casal que não consegue consumar o casamento. Dirigido por George Stevens, Vivacious lady conseguiu dar um baile na censura dizendo com olhares e gestos o que não poderia ser colocado em palavras.

Nada impulsivos, eles passam a noite vagando pelas ruas da cidade, conversando, e, pela manhã, se casam. O dilema de Peter agora é como apresentar à noiva para seu temido pai, já que o mesmo é um respeitado e conservador reitor da universidade local da cidadezinha de interior. Há uma certa tensão sexual entre os dois desde o início, e talvez isso explique o casamento apressado, já que Peter Morgan não faz o tipo andar fora da linha. Após o casamento, os dois pegam o trem com destino à cidade natal de Peter. O problema é que, durante a viagem, o casal não consegue um momento adequado para começar a lua de mel, já que houve um engano, e a cabine reservada está com um casal rabugento. Sem saída, são obrigados a deixar a cabine e ocupar um lugar qualquer no trem. Qualquer tentativa de intimidade do jovem casal é prontamente reprimida durante a viagem; eles acabam chegando ao destino sem ter consumado o casamento.
Chegando à Old Sharon, o pai e a noiva de Morgan o esperam, o que deixa Francey indignada. Não querendo fazer uma cena na estação, Peter decide não contar sobre o casamento ali. O casal resolve fingir que Francey é a esposa do primo. Sem querer, a loira acaba cometendo uma gafe atrás da outra, o que só faz com que o pai de Peter tenha uma péssima impressão dela e comente com o filho: "Ainda bem que ela não é sua esposa. Sei que você é sensato o suficiente para isso!". Claro que isso só adia o momento de contar a verdade, e ele parece nunca chegar. E esse é o plot de Vivacious lady: será que o tal momento de dizer ao pai que se casou com uma cantora de boate chegará algum dia? No ápice do desespero para ficarem juntos, Francey se matricula nas aulas de Peter, e o mais engraçado disso tudo são as tentativas do casal de esconder o desejo que sentem do restante da turma.
Enquanto ele não chega, somos presenteados com uma série de gags e cenas memoráveis: Francey em uma hilária cena de luta com a noiva, depois de ser devidamente provocada; Peter dando aula incrivelmente bêbado, enquanto seu pai passa de sala em sala na universidade acompanhado por fiscais, e depois de ter passado o tempo todo elogiando o filho para os homens; Francey, a mãe e o primo de Peter dançando juntos; Peter escalando a janela do hotel onde Francey está hospedada; e, o melhor de tudo, o que mostra o qual brilhante é a metalinguagem desse filme: enquanto estão discutindo no quarto, Francey e Peter são interrompidos pela cama embutida na parede, que cai quando uma porta bate ou qualquer outro movimento brusco ocorre. Lá pelas tantas, a cama para de cair, e os dois começam a bater portas de propósito enquanto conversam, na tentativa de fazer com que a cama desabe de vez. Quando ela ameaça cair definitivamente, os dois trocam olhares significativos, ela decide não deixar a cidade, a porta bate, a cama cai da parede, eles se abraçam... e são interrompidos novamente pelo gerente do hotel.

Publicado por Camila Pereira.
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