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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Corações loucos (1974)



Há mais ou menos um ano atrás estava eu descobrindo o cinema francês, aliás estava descobrindo o cinema em si, e eis que me deparo com um filme estilo Lolita, só que francês, chamado “A filha da minha mulher” (1981) dirigido por Bertrand Blier, com o ator Patrick Dewaere, Maurice Ronet e Ariel Besse. Impressionada com a atuação de Dewaere, fui procurar mais filmes para assistir e escolhi ”Corações Loucos”, também de Bertrand Blier, pois tinha o Depardieu no elenco. Desse dia em diante, esse filme começou a ocupar um lugar muito importante em meu coração, pois foi através dele que conheci Jeanne Moreau, sim! Jules et Jim ou qualquer outro grande sucesso seu dos anos 50/60 não foi meu primeiro filme com a Jeanne, mas sim essa pequena participação de 19 min nesse longa metragem. Claro, foi amor à primeira vista!

Corações loucos não é um filme para ver junto com toda a família, pois trata do politicamente incorreto. Seu próprio nome em francês já deixa isso bem claro, quando traz uma das gírias para testículos como nome do filme. Ele é ousado para os dias de hoje, que dirá para a época – 1974 – em que foi lançado. Além de ser alvo de censura, teve que mudar sua classificação indicativa para 18 anos devido ao teor dos diálogos e das cenas. Adaptado do romance homônimo escrito pelo próprio Blier, esse é o quarto filme do diretor, que não tinha tido muito reconhecimento com trabalhos anteriores, mas que consegue alcançá-lo com o lançamento desse filme polêmico. 

A seleção dos atores traz Gerard Depardieu como Jean-Claude, Patrick Dewaere como Pierrot e Miou-Miou como Marie-Ange. Eles também conquistaram grande reconhecimento após esse longa. Uma curiosidade interessante é que,a principio, Blier não queria Dewaere interpretando o personagem Pierrot, pois queria alguém que, em relação a Depardieu, fosse pequeno e magro. No entanto, após grande insistência, ele concordou, mas exigiu que Patrick sempre aparecesse um pouco atrás de Depardieu para que parecesse mais baixo do que realmente era.

Jean-Claude e Pierrot são dois amigos que vivem de cometer furtos e delitos na França. São obcecados por sexo e tem a liberdade como lema, isso é visível a todo o momento, até mesmo pela trilha sonora comporta por Stéphane Grappelli, que nos passa essa sensação:




Ex- detentos, mesmo após passarem alguns anos na cadeia continuam cometendo os mesmo erros. Assim saem pelas ruas furtando carros e estabelecimentos. Em uma dessas aventuras é que roubam o carro de um cabeleireiro que acaba descobrindo o roubo e atirando em Pierrot. Na fuga, eles levam como “refém” Marie-Ange assistente e amante do cabeleireiro. Após terem algumas relações a três, eles desistem de Marie, pois ela é frígida e isso os irrita bastante. Fazendo uma analogia ao titulo do filme, Pierrot é baleado próximo aos testículos, o que faz com que ele fique sem conseguir sentir prazer, levando os amigos a busca de novas experiências. Nessa jornada, sem muito sucesso, é que eles têm a ideia de ir para frente de uma prisão feminina aguardar “uma mulher de verdade”, e essa espera os leva a conhecer Jeanne Pirolle (Jeanne Moreau).


Pausa para falarmos da Jeanne: 


Jeanne Moreau sempre gostou de fazer filmes com novos diretores, sempre esteve em busca do novo, do diferente, foi isso que a levou a filmar com Malle e Truffaut, a ser o símbolo da Nouvelle Vague e a filmar com Cacá Diegues aqui no Brasil. A oportunidade de ajudar novos diretores foi o que norteou sempre sua carreira. Acredito que com Blier não foi diferente, apesar do tema ousado do filme, sempre esteve envolvida com temas que mexeram com a sociedade, como foi o caso de “Os amantes” (1958), “Chamas de Verão” (1966) e "Querelle" (1982). 


Agora, por que tanta coisa com uma cena de 19 min? Eu explico! Após Jean-Claude e Pierrot encontrarem Jeanne ao sair da prisão, eles começam a segui-la. Irritada, ela pede para que parem, mas sem sucesso. Jean-Claude insiste, até que ela cede e segue viagem com eles. Após uma breve pausa para compras, eles vão a um restaurante, e lá ela pede para que durmam com ela. Nessa hora vemos que acontece algo ao contrário do que até então já tinha se passado no filme, eles sempre corriam atrás das mulheres, chegavam até a violá-las, mas nesse caso, uma mulher realmente os queria. E voilà! Imaginem vocês uma cena de beijos e amassos entre Depardieu, Dewaere e Moreau. Pois é, dispensa maiores comentários!


Na sequência, outra conhecida por todos nós aparece: Isabelle Huppert. Com 21 anos de idade, no papel de Jacqueline, uma garota revolucionária que está de férias com os pais e que, revoltada, foge com Jean-Claude e Pierrot para que tirem sua virgindade. Vemos que Huppert, desde nova, sempre esteve participando de filmes polêmicos.



Enfim é claro que o filme não é um mar de rosas, há cenas que deixam mulheres revoltadas, com certo machismo imposto, como a entre Jean-Claude, Pierrot e o personagem interpretado por Brigitte Fossey, que é “violada” no metrô ou ainda as primeiras cenas da personagem Marie. Fora alguns poréms, a criação de personagens com características complexas e, ao mesmo tempo, humanas por outro lado faz com de certa forma amemos e odiemos esse filme imoral. 


Publicado por Patrícia Jarra

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