Image Map

sábado, 10 de maio de 2014

A vida é uma dança (1940)



Uma semana em casa comendo canja de galinha e baixando filmes nos deixa preguiçosos. Você não tem mais disposição para escrever porque nenhum filme que você viu durante essa semana de repouso o motivou suficientemente. Então lá estava eu, pensando no próximo filme para baixar, quando me deparei com A vida é uma dança de Dorothy Arzner. A princípio baixei por causa de Lucille Ball, esse é um dos poucos filmes disponíveis dos milhões que ela fez antes de se tornar a queridinha da América com seu seriado. Porém, eu deveria acreditar mais naquela frase clássica que sempre repito por aqui: os filmes é quem me escolhem; não eu a eles. Porque foi exatamente isso que aconteceu com  A vida é uma dança. A temática transgressora para sua época, uma MULHER na direção (quando poderíamos imaginar isso na Hollywood da era de ouro, que era pior do que a de hoje em dia?) e uma história que consegue dar o seu recado: assim é essa produção da RKO. 

Providencie o arquivo do Torrent; esse filme vale realmente a pena ver. 

A vida é uma dança (Dance, girl, dance) começa em uma espécie de boate onde lindas garotas estão dançando para uma plateia. A câmera está interessada em nos apresentar Bubbles (Lucille Ball) e Judy (Maureen O'Hara), embora esta segunda não seja tão filmada quanto a outra. Um rapaz parece não estar muito no clima do lugar; está triste, fumando um cigarro nervosamente. Enquanto continuam dançando, Bubbles pisca para o rapaz, que não dá a mínima. O número é interrompido pela polícia que chega para prender todo mundo e acabar com a jogatina.Os policiais querem prender as dançarinas também, mas Judy começa um discurso bastante interessante. "Não somos mais cúmplices que os clientes... estamos tentando ganhar a vida e queremos que nos paguem antes de irmos" - ela diz. O desconhecido com quem Bubbles estava flertando antes aplaude, sozinho na sua mesa. Depois de convencer os policiais a pagarem as meninas, inicia-se um flerte entre ele e Judy. Eles dançam e se sentam para conversar. De repente, ela pergunta o porquê dele estar naquele lugar. Que assim como ela, ele não pertencia a aquele lugar. O rapaz fica enfurecido e diz que está ali porque tem algo para celebrar. O clima fica pesado, Judy se retira e Bubbles assume o comando da situação. No fim da cena, o rapaz acaba saindo com Bubbles, e esse é o primeiro indício do antagonismo, dos mundos diferentes que as duas personagens pertencem. E claro... aquilo que os homens preferem.

O filme é surpreendente nesse aspecto, pois coloca quase explicitamente - ele foi realizado antes do código de censura baixar em Hollywood, o que explica em parte sua liberdade - o tipo de mulher que Hollywood costuma condenar em seus filmes: a cheap and horrible. A diferença é que aqui a cheap and horrible em questão é uma personagem carismática, engraçada, cheia de fogo e música. Ela não será punida ao final do filme também, o que achei bastante interessante. Em nenhum momento o filme tenta nos vender qual delas presta ou não. O que existe para Dorothy Arzner são situações. E convenhamos, amigos, que a situação para as mulheres nessa época estava ainda mais complicada do que nos dias de hoje.

Os mundos diferentes representados por Bubbles e Judy

Bubbles é esperta, ela sabe que os homens gostam das garotas más, de "vulgaridade". Ela também sabe que tem tudo isso a oferecer. Poderíamos resumir que a personagem sabe como funciona o mundo masculino, que de certa forma está consciente do machismo existente nele. Isso fica bastante evidente em duas cenas: a da hulla e a primeira cena que descrevi acima. Na cena da hulla, Judy está ensaiando um número de dança havaiana, coordenadas por Madame Basilova (para alguns críticos o alter-ego de Arzner). Sr.Hoboken, uma espécie de olheiro de uma boate, está assistindo para ver se decide contratar as garotas. Mas não dá. Elas não dançam "da maneira certa", tanto é que o tal olheiro quase dorme na cena. "Ela não tem o que meus clientes querem" - diz o Sr. Hoboken. De repente, Bubbles entra em cena e Madame Basilova diz: "Agora temos o que seus clientes querem".  Eu não tenho classe, diz Bubbles, enquanto se prepara para começar a dançar. Com essa frase, a personagem começa a dançar. E é esse o momento em que eu me perguntei diversas vezes como Hollywood reagiu assistindo essa cena, que para eles deveria ser de uma vulgaridade sem fim. Os quadris de Lucille Ball dançam de um jeito bastante sensual, denunciando de novo que os homens gostam é dessas garotas que não "prestam" mesmo. Inocência? Ah, mas eles não querem saber disso, não. A prova disso é que mais para frente do filme, Judy e sua inocência serão motivo de chacota, uma "escada" para a subida de Bubbles. Parece que a garota inocente só serve para casar e olhe lá.

A famigerada cena da Hulla

Bubbles (Lucille Ball) e Judy (Maureen O'Hara).
Já Judy representa o oposto de Bubbles: inocência, pureza. Uma certa ingenuidade em relação ao mundo. Dorothy trabalha a oposição entre elas através das danças que perfomam: o ballet e o burlesco. Esse procedimento para demonstrar antagonismos já foi usado em outros filmes, como em A roda da fortuna, o qual resenhei por aqui. O burlesco é a libertação do corpo da mulher, digamos assim. Ela pode dispor dele de maneira sensual, sem que a sociedade a julgue. Já o ballet é inocência, pureza e os próprios figurinos, quase sempre em cores suaves, atestam esse fato. Por isso, o fato de Judy ser uma exímia bailarina clássica não é fruto do acaso. Através do ballet clássico X burlesco, Arzner mostra que, no mundo, não há vez para quem é ingênuo e puro. O mundo é daqueles que sabem aproveitar as situações, como Bubbles. Por isso, é esta última e não Judy que fica milionária. Enquanto Judy se mata para encontrar um emprego como dançarina, Bubbles está requebrando os quadris todas as noites em uma boate X e sendo adorada por todos. Agora ela é Tiger Lily.

O discurso de Judy e a denúncia de um mundo hipócrita
Depois de procurar e procurar emprego, Judy acaba aceitando a oferta de Bubbles e vai trabalhar com ela. O emprego? É o que chamam de "escada". Funciona da seguinte forma: Bubbles está fazendo seu número burlesco, sai do palco, começa a atirar as roupas para o alto enquanto Judy entra dançando ballet clássico. Ela é vaiada enquanto dança, gritam-lhe frases como "Queremos Tiger Lily!" ou "Sua mãe deixou você sair de casa?" . Judy dança até que Bubbles volte para o outro número, em que canta uma música para lá de picante. Um dia, cansada de ser humilhada, Judy aproxima-se do público e começa um discurso, que reproduzo abaixo:

Podem olhar. Não tenho vergonha. Riam, vocês estão pagando, ninguém vai lhes machucar. Sei que querem que fique nua para fazer valer seus 50 centavos. 50 centavos para olhar para uma garota como suas esposas não os deixam. O que acham que pensamos de vocês daqui de cima? Com seus sorrisos bobos que envergonhariam suas mães. Sabemos que é moda para os elegantes virem aqui e rirem de nós. Nós rimos de vocês, exceto que nos pagam para deixarmos que sentem aí enquanto rolam os olhos e fazem comentários geniais. [...] Para quê? Para que finjam ser o sexo forte por alguns momentos?

Perguntei-me novamente como Hollywood deixou esse filme ser exibido. Olhem a carga desse discurso! Alguns críticos o analisam como uma crítica ao staff de Hollywood e ao sexismo presente por lá. Dorothy, junto com Ida Lupino, foram os únicos nomes femininos que conseguiram  fazer carreira em Hollywood. Também podemos analisá-lo como uma crítica à hipocrisia, esse óleo que faz o mundo correr. Em casa a mulher deve ser uma esposa perfeita, de preferência bem longe de cheap and horrible. Uma senhora respeitável. No fim das contas, o marido deveria ser o senhor do corpo e vontade de sua esposa. O mais assustador é que na primeira temporada da série Dallas, J.R (Larry Hagman) dá um sermão na esposa, Sue Ellen (Linda Gray) porque ela resolveu comprar um baby doll para usar com o marido. Lembro perfeitamente de ele a ter chamado de vulgar e ficado com uma cara de "mas o que você está fazendo, mulher??". Triste. É Dorothy Arzner que toma a voz através de Maureen O'Hara neste discurso.

Dorothy Arzner, uma diretora em uma Hollywood masculina


Dorothy Arzner é a única mulher membro do Directors Guild. A única, minha gente, até hoje. Isso demonstra que muitas coisas não mudaram. Essa reportagem traduz um pouco de como a indústria cinematográfica anda nos dias de hoje para as mulheres: http://oglobo.globo.com/cultura/desequilibrio-em-hollywood-mulheres-sao-minoria-nas-telas-nos-bastidores-11860782 Continuando... Dorothy, assim como Ida, foi uma prova de que sim, nós podemos, chegar lá. Por nossos méritos, sem teste do sofá e o caramba. Seus pais eram donos de um restaurante frequentado por várias estrelas da era muda do cinema. No entanto, Arzner queria ser médica. Trabalhou na Primeira Guerra Mundial como enfermeira. Quando retornou, visitou um estúdio de cinema, apaixonou-se e decidiu que queria trabalhar em Hollywood. Seu primeiro emprego foi na Paramount Studios como estenógrafa. Foi em Sangue e areia (Blood and sand) com Rudolph Valentino, que seu trabalho começou a ser notado. Ela poupou milhões de dólares ao intercalar as cenas das touradas de Valentino com filmagens reais. Assim, o diretor James Cruze a empregou como editora e roteirista e ela trabalhou em vários de seus filmes. 

O primeiro talkie de Clara Bow foi dirigido por Arzner, The wild party. É a ela que é creditada a técnica de colocar os microfones em varas de pesca para que Clara pudesse se mover livremente pelo set. Alguns filmes da era pre-code com temáticas homossexuais também são de Dorothy. A diretora trabalhou com inumeras estrelas, entre elas Joan Crawford em The bride wore red. As duas ficaram bastante amigas, depois de se aposentar de Hollywood, Dorothy dirigiu inúmeros comerciais da Pepsi Cola a pedido da amiga. 

Uma reportagem bastante interessante sobre Arzner expõe algumas razões pelas quais ela conseguiu fazer sucesso em Hollywood mesmo sendo mulher. Uma delas é que Dorothy conseguiu, em seus filmes, capturar aquilo que o público esperava. A maioria de seus filmes são melodramas e suas heroínas exemplos de feminilidade, o que destoa da imagem da própria Dorothy, que segundo esta reportagem seria uma lesbian butch.

Independente dessas razões, acho importante atentarmos para o fato de que, mesmo em pequena quantidade, haviam mulheres para nos representar em Hollywood. E Dance, girl, dance é um filme genial porque mostra a visão desse mundo masculino e hipócrita através dos olhos de uma mulher, o que torna o tom de denúncia maior. 

Lucille Ball, um papel que nunca esperaríamos e fofocas


Dizem que esse foi o filme que projetou Lucille Ball para as telas dos cinemas. E não é a toa, seu papel como Tiger Lily é demais! Eu arriscaria dizer que esse é um de seus papeis mais "ousados" para o cinema. O timing de Lucille, para as piadas, já aparece aqui: Tiger Lily é sobretudo uma mulher bem humorada. Depois de treinar muito com a Lela Rogers, a mãe e mentora de Ginger Rogers, já estava na hora de Lucille ter um papel realmente grande em um filme. 

E como não é só de análise que se vive o homem, para os Hedda Hopers de plantão aqui vai a fofoca: Desi Arnaz e Lucille se conheceram nos bastidores desse filme. Lucille relata em sua auto-biografia, Love Lucy, que foi ao ver essa cena que Arnaz, recém chegado em Hollywood e na RKO, caiu de amores por ela:

Eu é que não vou culpar o Desi por ter se apaixonado pela Lucille...

Ela conta que no final do dia, sem maquiagem e vestida de forma comum, Desi não a reconheceu e eles tiveram que ser apresentados novamente. No mesmo dia, os dois foram jantar e começou uma das histórias de amor mais bonitas de Hollywood. 


Espero que vocês apreciem este filme tanto quanto eu. Cortei várias partes para evitar os spoilers, mas acredito que esse filme é uma forma de olhar o passado e refletir como estamos hoje. Alguma coisa mudou? Como esse filme retrata as mulheres? Como elas são retratadas hoje? É sempre bom pensar.

Publicado por Jessica Bandeira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário