Image Map

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Na glória, a amargura (1963)



O último filme de Judy Garland, Na glória, a amargura (I could go on singing) é uma despedida dolorosa e única do cinema. Por misturar ficção e realidade é difícil assisti-lo sem pensar na própria vida da atriz. E mesmo sem conhecer um pouco de sua vida você se emociona. Filmes sobre o show business, por mais engraçados que sejam, sempre tem um ar sombrio, não acham?

Reserve sua caixa de lenços, principalmente se você é um fã da linda Judy Garland, e venha conosco!



Que Judy Garland é uma estrela, mãe de Liza Minnelli (o melhor presente que poderia ter deixado para a humanidade) todos sabem. No entanto, o que poucos sabem é que por trás daquele glamour hollywoodiano havia uma mulher insegura, que tinha a sensação de ter tido a infância roubada. Isso porque, com 13 anos, Judy Garland já era uma estrela da MGM. Louis B. Mayer, o chefão do estúdio, assistiu-a cantando e a contratou sem teste algum. Garland, naquela época, já tinha uma voz muito poderosa. O estúdio vivia um dilema, pois ela era muito nova para papeis adultos e muito velha para papeis de criança. E sua voz poderosa, tão pouco “13 anos feelings”, era algo que intrigava o pessoal do estúdio. Judy sempre tivera baixa auto-estima, e isso apenas piorou quando se tornou uma estrela. Suas colegas de estúdio, Lana Turner, Ava Gardner e tantas outras, eram mulherões desde a mais tenra idade enquanto Judy estava mais para the girl next door. O estúdio a consagrou com esta imagem, e foi difícil livrar-se dela. A MGM foi um estúdio extremamente abusivo com Judy Garland. Mayer a chamava de “pequeno corcunda” e, reza a lenda que os astros mirins tomavam anfetaminas para se manterem acordados.


Com o passar dos anos, Judy foi abandonando a adolescência e começou seus primeiros papeis adultos. Seus maiores filmes incluem Agora seremos felizes, musical onde ela conheceu Vincent Minnelli – o pai de Liza e Lily, a teimosa (Presenting Lily Mars). Porém o estigma de the girl next door ainda a perseguia, a insegurança continuava e Judy engordava e emagrecia com uma rapidez imensa. Um de seus maiores sucessos, Casa, comida e carinho (Summer Stock), demorou seis meses para ficar pronto devido aos problemas de saúde e emocionais da estrela. Get happy, um de seus maiores sucessos, foi gravado separadamente do filme, se você notar ela está mais magra neste número, devido ao efeito dos remédios, tratamentos e tudo que puderem imaginar. Hollywood arruinava a vida de todas suas estrelas de certa forma, pois ao contrário dos homens, elas não tinham liberdade para nada. Se quisessem sair e dar aloka – Lana Turner, estou falando com você! –, o estúdio abafava o causo, suspendia e colocava na geladeira. Vai aprender a se comportar como uma dama.

Get happy, número de Casa, comida e carinho (Summer Stock)

Então imaginem vocês a sensação de ver um filme onde essas coisas acima que contei são retratadas de certa forma. Já começa pelo título, I could go on singing. Não importa o quão ruim a vida de Garland estivesse, a música e seu talento sempre a salvariam.

O filme começa com Jenny Bowman (Judy Garland), uma grande cantora, chegando na casa do Doutor David Donne (Dirk Bogarde). Ao longo dessa primeira cena vamos descobrindo que os dois já se conhecem. Jenny alega que sua voz falhou durante o concerto que fizera na mesma tarde em Londres. É interessante notar que na mesma época Judy Garland foi diagnosticada com hepatite aguda. Os médicos disseram que lhe restavam cinco ou seis anos de vida. Percebemos nesta cena  que Jenny tenta puxar papo com o médico, evocando o passado, e ele se esquiva. Há uma estranha tensão sexual no ar, que se materializa no momento em que o médico massageia seu pescoço e ela não consegue esconder sua satisfação. A princípio o drama parece ser “esses dois aí tiveram um lance no passado”. Correto. No entanto, o lance foi mais sério, pois Jenny teve um filho com o doutor que ela abandonou pela carreira. Agora Jenny quer vê-lo, mas David se recusa.

Jenny Bowman (Judy Garland) e Matt (Gregory Philipps).
Jenny insiste tanto que David cede. O encontro entre ela e Matt (Gregory Phillips), o filho que não sabe que está frente a mãe, é lindo. Há uma afinidade imediata e, logo de cara, você começa a torcer pelo relacionamento entre mãe e filho. Ao longo do filme o relacionamento entre eles cresce na mesma proporção que o descontentamento de David por isso. Ele tem medo que essa mãe maluca arruíne a criança, levando-o para seu estilo de vida louco do show business.



Uma das melhores cenas do filme é talvez também uma das mais tristes. Ela acontece quando o filme está quase terminando e Jenny tem um “ataque de estrela”, depois de uma emoção muito forte (obviamente não darei o spoiler para não perder a graça). Jenny pega o carro, bêbada, acaba batendo e indo para o hospital. Lembrei-me de Lágrimas amargas, filme de Bette Davis em que ela também é uma estrela, acaba bebendo muito e batendo o carro em uma árvore. David vai buscar Jenny no hospital, pois é sua noite de estréia e ali, dentro de uma salinha minúscula, realidade e ficção se misturam como nunca. Preste atenção na conversa entre os dois personagens. Estou explodindo com o mundo inteiro! – ela diz. A partir daí, ela discute com David, pedindo para ir para casa, que ela é apenas uma pessoa, não pode fazer tudo e o público que se dane. A intensidade dessa cena é muito grande, especialmente porque é um dos raros momentos em que vemos o artista e não o personagem falando. Foi como se Judy Garland estivesse falando sobre sua própria vida naquele momento. Não quero me desdobrar em um bolo e que todo mundo coma um pedaço. No fim das contas todos comeram um pedaço dela, até não sobrar nada. Judy teve a infância e adolescência roubadas por um estúdio que só se aproveitou de seus talentos e que não lhe dava o suporte necessário. Os pedaços de sua auto-estima estavam no chão, porém ela sempre se levantava para cantar e atuar. Dar ao público o que ela tinha de melhor. É engraçado, pois até em uma cena dramática como essa, Judy consegue dar seu toque, um toque um pouco engraçado. Nós rimos dessa situação, mesmo sabendo que ela é tão miserável e triste.



Durante todo filme percebi, mais do que nunca, como Judy e Liza são parecidas. Por alguma razão, eu parei de olhar a tela e só fiquei ouvindo Garland falar. Por dois segundos você acredita que é a Liza. Uau. A genética foi muito feliz com a família Garland-Minnelli.

Na glória, a amargura é um filme muito bom, mostrando que Judy Garland é uma ótima atriz dramática. Se é que alguém ainda duvida disso. Ela consegue segurar o filme muito bem, temos a presença de algumas canções, mas elas não são a mola propulsora. Ainda que Jenny seja uma estrela, a identificação com seu drama é imediata. Quem nunca teve de abrir mão do que mais amava em busca de um sonho? Um dos pontos mais legais desse filme em si é que ele não julga as escolhas de Jenny. As personagens a julgam, mas o filme não. Uma despedida emocionante de Judy Garland do cinema.

Bastidores:
  • Os figurinos foram desenhados por ninguém mais ninguém menos do que Edith Head;
  • Os filhos de Judy, Lorna e Joey Luft, foram extras nesse filme;
  • A primeira escolha dos produtores para o papel de David Donne foi Lawrence Olivier
Publicado por Jessica Bandeira.

Um comentário:

  1. Amei o post, gatz! Eu comprei o dvd em POA ainda, e não assisti, porque acho que tem uma vibe deprê, e ainda não tinha encontrado o clima certo pra ver, mas agora até fiquei com vontade de ver logo. A história da Judy dói no coração, ela sofreu tanto, né? E era tão incrivelmente talentosa, e não teve o reconhecimento merecido na época.

    Parabéns pelo texto, adorei! :)

    ResponderExcluir